Autismo e adolescência: quando o filho muda, a mãe também precisa se reinventar
✦ OLHAR PROFISSIONAL
Conhecimento para compreender. Informação para acolher.
Conteúdos escritos por profissionais convidados do Universo Atípico.
Por Taiana Faria | Psicóloga
Para muitas mães, a adolescência chega acompanhada de uma mistura de esperança e medo.
“Será que ele vai conseguir ser mais independente?”
“Como lidar com tantas mudanças?”
“E se as crises aumentarem?”
“Será que estou fazendo o suficiente?”
Essas perguntas são legítimas. E, quando falamos da adolescência no autismo, elas costumam vir acompanhadas de uma sobrecarga emocional ainda maior.
Adolescência: um período de intensa transformação cerebral
A adolescência é um período de intensa transformação cerebral. A neurociência mostra que o cérebro passa por uma importante reorganização, especialmente no córtex pré-frontal, região responsável pelo planejamento, controle dos impulsos, flexibilidade cognitiva, tomada de decisões e regulação das emoções (Blakemore & Choudhury, 2006).
Esse amadurecimento acontece ao longo de muitos anos e, em adolescentes autistas, pode apresentar um ritmo e uma forma diferentes, tornando algumas demandas dessa fase mais desafiadoras.
Ao mesmo tempo em que o corpo muda, aumentam as expectativas da sociedade: espera-se mais autonomia, maior responsabilidade, amizades mais complexas, adaptação constante e melhor desempenho escolar.
Porém, para muitos adolescentes autistas, esse cenário pode significar um aumento da ansiedade, da sobrecarga sensorial, do cansaço mental e da dificuldade para organizar pensamentos e emoções.
E é justamente nesse momento que muitas mães se perguntam se estão perdendo seus filhos.
Na verdade, muitas vezes, eles continuam precisando da mesma segurança de antes — apenas de uma maneira diferente.
É comum que o adolescente pareça mais fechado, mais irritado, queira ficar sozinho por mais tempo ou tenha dificuldades para expressar o que sente. Isso não significa, necessariamente, que ele não queira a presença da família.
Muitas vezes, significa apenas que seu cérebro está trabalhando intensamente para lidar com tantas mudanças ao mesmo tempo.
A psicologia do desenvolvimento nos lembra que a aprendizagem não acontece apenas na sala de aula. Ela depende da sensação de segurança, do vínculo afetivo e da regulação emocional.
Quando o cérebro está em estado constante de alerta ou ansiedade, torna-se mais difícil aprender, resolver problemas e desenvolver novas habilidades (Siegel, 2012).
Por isso, apoiar um adolescente autista vai muito além de ajudá-lo nas tarefas escolares.
É construir um ambiente onde ele se sinta compreendido, respeitado e aceito.
Pequenas atitudes que podem fazer diferença
Esse apoio pode acontecer por meio de pequenas atitudes diárias:
- manter rotinas previsíveis e explicar antecipadamente mudanças importantes;
- oferecer instruções claras e dividir tarefas em etapas menores;
- validar emoções antes de corrigir comportamentos;
- respeitar o tempo de processamento das informações;
- utilizar os interesses do adolescente como pontes para novas aprendizagens;
- celebrar pequenos avanços, lembrando que cada conquista acontece no seu próprio tempo.
Mas existe um cuidado que, muitas vezes, acaba ficando esquecido:
o cuidado com a própria mãe.
Cuidar da própria mãe também importa
É comum que mães atípicas coloquem todas as suas forças no bem-estar dos filhos e, aos poucos, deixem de olhar para si mesmas.
Entretanto, a ciência mostra que a autorregulação emocional dos pais influencia diretamente a regulação emocional dos filhos. Um adulto que consegue cuidar do próprio estresse, buscar apoio, descansar quando possível e acolher suas próprias emoções oferece, sem perceber, um ambiente mais seguro para o desenvolvimento da criança e do adolescente (Siegel & Bryson, 2011).
Cuidar de si não é egoísmo.
É uma forma de continuar cuidando do outro.
Você não precisa ser uma mãe perfeita.
Seu filho não precisa de perfeição.
Ele precisa de uma mãe emocionalmente disponível, que também reconheça seus limites, peça ajuda quando necessário e compreenda que ninguém atravessa essa jornada sozinho.
Novos desafios, novas possibilidades
A adolescência pode trazer novos desafios, mas também novas possibilidades.
É um tempo de descobrir potencialidades, fortalecer a autonomia e construir identidade.
Quando família, escola e profissionais caminham juntos, respeitando o ritmo singular de cada adolescente, criamos oportunidades para que ele floresça, desenvolva suas habilidades e encontre seu lugar no mundo.
Que possamos olhar para esses adolescentes não apenas pelas dificuldades que enfrentam, mas também pelas capacidades que podem desenvolver quando encontram adultos que acreditam neles, os compreendem e caminham ao seu lado.
Sobre a autora
Taiana Faria é psicóloga (CRP 16/2832), com atuação em psicoterapia da infância e adolescência, desenvolvimento emocional e orientação parental. Dedica-se ao acompanhamento de crianças, adolescentes e suas famílias, com um olhar acolhedor para os desafios do desenvolvimento e das relações familiares.Instagram: @taifariapsi
✦ Sobre a série Olhar Profissional
Este artigo faz parte da série Olhar Profissional, do Universo Atípico.
A série reúne conteúdos escritos por profissionais convidados de diferentes áreas, trazendo conhecimento, experiências e reflexões para ajudar famílias a compreender melhor diferentes formas de desenvolvimento e os desafios que podem surgir ao longo da jornada.
Conhecimento para compreender. Informação para acolher.
Referências
Blakemore, S. J., & Choudhury, S. (2006). Development of the adolescent brain: Implications for executive function and social cognition. Journal of Child Psychology and Psychiatry.
Siegel, D. J. (2012). The Developing Mind: How Relationships and the Brain Interact to Shape Who We Are.
Siegel, D. J., & Bryson, T. P. (2011). The Whole-Brain Child.
American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR).