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Publicado em 24/03/2026

Autismo em Portugal: a urgência da consciencialização e formação de agentes públicos

Autismo em Portugal: a urgência da consciencialização e formação de agentes públicos


Recentemente, começou a circular nas redes sociais o relato de uma mãe em Leiria sobre uma situação envolvendo o seu filho, um jovem de 15 anos com autismo severo não verbal. Segundo o seu testemunho, o rapaz terá saído da escola sem supervisão numa situação de fuga (algo que pode acontecer em pessoas no espectro) e acabou por entrar numa habitação desconhecida. O episódio levou à intervenção das autoridades, dando origem a um momento que, pelas fotos e pela forma como foi descrito pela família, deixou-nos perplexos e preocupados.

Enquanto projeto que procura consciencializar, informar e contribuir para uma sociedade mais inclusiva, e também enquanto mãe de uma criança autista não verbal, este não é um tema que possamos simplesmente ignorar ou deixar passar.

Há uma dor que se reconhece.
Há um medo que é comum a muitas famílias.
E há uma realidade que precisa, urgentemente, de mais compreensão.

Mais do que analisar um caso isolado, este momento convida-nos a refletir sobre algo maior: até que ponto estamos preparados, enquanto sociedade, para lidar com o autismo, sobretudo quando ele não é imediatamente visível ou compreendido?


Quando o mundo não está preparado

Para muitas famílias, o dia-a-dia já envolve um equilíbrio constante entre cuidado, adaptação e antecipação.

No caso de pessoas autistas não verbais, situações de fuga, desorientação ou aproximação a espaços desconhecidos não são incomuns, especialmente quando há sobrecarga sensorial ou ansiedade.

O que, para quem está de fora, pode parecer um comportamento estranho ou até alarmante, é muitas vezes uma resposta a um mundo que se tornou, de repente, demasiado intenso.

E é precisamente nestes momentos que a compreensão faz toda a diferença.


Entre o medo e a falta de conhecimento

Quando uma situação envolve terceiros, sejam vizinhos, desconhecidos ou agentes públicos,  tudo acontece rapidamente.

E quando não existe preparação ou conhecimento suficiente sobre o autismo, o risco de interpretação errada aumenta.

O silêncio pode ser visto como desafio.
A fuga pode ser vista como resistência.
A desorganização pode ser vista como ameaça.

Mas, na realidade, pode tratar-se apenas de um jovem de 15 anos, não verbal, assustado, desorientado e incapaz de comunicar o que está a sentir.

E é aqui que, enquanto sociedade, ainda temos um longo caminho a percorrer.


O peso que as famílias carregam

Para muitas mães e pais, existe um medo silencioso que acompanha o dia-a-dia:

“E se um dia o meu filho estiver sozinho e ninguém perceber?”

Este pensamento não é exagero, é real.

Porque quando o autismo não é reconhecido, a vulnerabilidade aumenta.

E situações que poderiam ser resolvidas com empatia podem transformar-se em momentos de tensão, medo ou até perigo.


Quando a resposta institucional falha

Este tipo de situação levanta uma questão essencial que não pode ser ignorada:

estão os agentes públicos preparados para lidar com pessoas neurodivergentes?

A verdade é que, em muitos casos, não.

E isso não é necessariamente uma falha individual, é uma falha estrutural.

A ausência de formação específica faz com que profissionais que estão na linha da frente, como forças de segurança, equipas de emergência e até mesmo alguns profissionais de saúde, não tenham ferramentas para reconhecer e agir adequadamente perante o autismo.

E quando falamos de uma intervenção com um jovem vulnerável, não verbal, essa preparação deixa de ser opcional.
Passa a ser uma responsabilidade.


Um apelo a quem pode fazer a diferença

Este é também um momento para chamar à atenção de quem tem poder para transformar esta realidade, tornar a sociedade mais preparada é um projeto que deveria visto e levado a sério desde os Ministérios até entidades formadoras de forças de segurança,de saúde e educação.

A formação obrigatória sobre autismo e outras condições neurodivergentes deve ser uma prioridade, não apenas como medida preventiva, mas como garantia de dignidade e segurança.

Porque proteger pessoas vulneráveis não pode depender do acaso ou da sorte de encontrar alguém que “perceba”.


Pequenos sinais que podem fazer uma grande diferença

Falar sobre este tema também é falar sobre soluções.

A identificação, seja através de uma pulseira, um cartão ou outra forma discreta — pode ajudar terceiros a perceber que estão perante uma pessoa com necessidades específicas.

Mas, mais uma vez, é importante reforçar:
a responsabilidade não pode recair apenas sobre as famílias.

A inclusão constrói-se em conjunto.


O que todos nós podemos fazer

Nenhum de nós precisa de ser especialista para agir com mais empatia.

Às vezes, basta:

  • parar antes de reagir
  • observar com mais atenção
  • falar com calma
  • evitar o contacto físico imediato
  • dar espaço e tempo

E, acima de tudo, lembrar que nem todas as dificuldades são visíveis.


Mais empatia, mais preparação, mais humanidade

Histórias como esta não devem servir apenas para gerar indignação momentânea.

Devem servir para abrir conversas, criar consciência e inspirar mudança, tanto a nível individual como institucional.

Porque por trás de cada situação, existe uma família.
Existe uma mãe.
Existe um jovem de 15 anos que merece ser protegido, compreendido e respeitado.

E talvez o caminho comece aqui:
com mais empatia nas pessoas, mais preparação nas instituições e mais responsabilidade em quem pode, de facto, fazer a diferença.

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