Receber um diagnóstico de autismo: a mãe que me tornei
Achei que o diagnóstico mudaria o meu filho. Afinal, mudou-me a mim.
Quando o Heitor recebeu o diagnóstico de autismo, pensei que a mudança aconteceria apenas na vida dele. Hoje sei que a maior transformação aconteceu em mim.
O dia em que tudo mudou
Há dias que ficam gravados para sempre.
Não porque tenham sido os piores dias da nossa vida, mas porque marcam o início de uma nova história.
O dia em que recebemos o diagnóstico de autismo do Heitor foi um desses dias.
Lembro-me de sair daquela consulta com centenas de perguntas.
Será que ele vai falar?
Como será a escola?
Que terapias devemos procurar?
Será feliz?
Como mãe, só conseguia pensar no futuro. Queria antecipar todas as dificuldades e encontrar respostas para tudo.
Naquele momento, acreditava que o diagnóstico iria mudar completamente a vida dele.
Hoje percebo que também mudou a minha.
Passei a olhar para o desenvolvimento de outra forma
Antes do diagnóstico, como muitas mães, tinha uma ideia muito linear do desenvolvimento infantil.
Aprender a falar.
Aprender a brincar.
Aprender a ler.
Parecia existir uma ordem para tudo.
Com o tempo, percebi que uma criança autista pode aprender as mesmas competências, mas seguir um caminho completamente diferente.
Foi preciso abandonar a ideia de "idade certa" e começar a valorizar o ritmo certo.
Essa mudança parece simples.
Mas, para uma mãe, muda tudo.
Porque deixamos de viver à espera da próxima comparação e começamos a celebrar cada pequena conquista.
Descobri que o comportamento comunica
Houve uma fase em que queria corrigir quase tudo.
Se o Heitor repetia um movimento, perguntava-me como fazê-lo parar.
Se brincava de uma forma diferente, tentava mostrar-lhe a maneira "certa".
Hoje faço uma pergunta completamente diferente.
O que é que este comportamento me está a tentar dizer?
Essa mudança de perspetiva transformou a nossa relação.
Nem sempre encontro respostas.
Mas aprendi que compreender vale muito mais do que controlar.
Também precisei de aprender a brincar
Uma das maiores mudanças aconteceu em momentos muito simples.
Como brincar.
Antes, pegava num jogo e queria seguir as instruções.
Hoje sei que brincar não precisa de ter um único objetivo.
Às vezes, um jogo de animais transforma-se numa história.
Outras vezes, serve apenas para observar, explorar ou repetir uma atividade que traz segurança.
E está tudo bem.
Foi o Heitor que me ensinou isso.
Aprendi a celebrar o que antes me passava despercebido
À medida que o tempo foi passando, percebi que as maiores vitórias nem sempre eram aquelas que toda a gente via.
Esperar alguns segundos sem se desregular.
Aceitar uma pequena mudança na rotina.
Experimentar um alimento novo.
Olhar nos olhos durante mais tempo.
Pedir ajuda.
Para muitas pessoas, estes momentos parecem pequenos.
Para uma família que vive o autismo, podem representar semanas ou meses de trabalho, dedicação e persistência.
Hoje celebro muito mais estas conquistas do que qualquer comparação com o desenvolvimento de outras crianças.
A Universo Atípico também nasceu desta transformação
Muitas pessoas perguntam porque decidi criar a Universo Atípico.
A resposta está precisamente aqui.
Porque, durante esta caminhada, senti falta de um lugar onde encontrasse recursos escolhidos por quem vive esta realidade.
Não queria uma loja com centenas de produtos.
Queria uma curadoria.
Produtos que eu própria conseguisse recomendar a outra mãe.
Produtos que fizessem sentido.
Produtos que respondessem a necessidades reais.
Hoje, sempre que escolhemos um novo recurso para a loja, fazemos a mesma pergunta:
"Este produto pode realmente facilitar a vida de uma família?"
Se a resposta for "não sei", ele não entra.
Se a resposta for "sim", então faz sentido fazer parte da nossa curadoria.
Se recebeste agora um diagnóstico...
Talvez estejas exatamente onde eu estive.
Com medo.
Com dúvidas.
A tentar encontrar respostas para perguntas que ainda ninguém consegue responder.
Se pudesse sentar-me ao teu lado hoje, dizia-te apenas isto:
Não precisas de descobrir tudo esta semana.
Nem este mês.
Nem este ano.
O teu filho continua a ser a mesma criança que era antes do diagnóstico.
E tu continuas a ser a mãe de que ele precisa.
O resto... vocês vão construir juntos.
Um passo de cada vez.
Conclusão
Durante muito tempo pensei que esta caminhada seria apenas sobre o desenvolvimento do Heitor.
Hoje sei que também foi sobre o meu.
Aprendi a observar mais.
A comparar menos.
A celebrar pequenas vitórias.
A procurar compreender antes de corrigir.
E foi dessa transformação que nasceu a Universo Atípico.
Porque, antes de existir uma loja, existiu uma mãe à procura de respostas.
E essa mãe continua aqui, a aprender todos os dias.
Este artigo reflete a minha experiência pessoal como mãe do Heitor. Cada criança autista é única e cada família vive esta caminhada de forma diferente. Se a tua história não é igual à minha, isso não significa que estejas a fazer algo errado. Apenas significa que cada percurso é único.💙 Recursos que podem ajudar nesta fase
Se estás no início desta caminhada, estes recursos podem ser úteis:
- 🧩 Jogo dos Animais – Uma forma versátil de estimular a linguagem, a imaginação e a aprendizagem através da brincadeira.
- 🪪 Cordão de Identificação – Um recurso que pode facilitar a compreensão em situações onde as necessidades nem sempre são visíveis.
- 📚 Explora toda a Curadoria Universo Atípico – Recursos selecionados para apoiar crianças neurodivergentes e as suas famílias,
